9 de jul. de 2009



A NEVE NA NÉVOA

Capítulo 1

... lembro-me do arrozal rajado de tigres em que adormecia a olhar o céu. Minha única tarefa, nesse mosteiro com neve pelo telhado, é varrer os cacos do buda para debaixo da chuva. Daqui pode-se ouvir, mais abaixo, a missa das melancias. Mais para o poente escutamos o silêncio do poço do mosteiro. Se mirar dessa janela observamos, ainda, a ciranda das andorinhas, pois agora é quase amanhã. E há um louco que atira pedras na vidraça. Um sacerdote vem nos contar, todos os dias de finados, que sonhou que rolava uma imensa cabeça ladeira acima e que, lá no topo, a cabeça voltava a descer e ele, o sacerdote, recomeçava o eterno castigo. E assim, nessas enevoadas tardes observo, dos livros da biblioteca, o imóvel. A madre superior, sempre que percebe que a cárie fede em sua boca, ordena o castigo abrupto: bebam desse mar gelado o sal que ele, o mar gelado, é, nada mais, nada menos, que a vossa própria sede. Depois ordena que descansamos as mãos na ária da lira. O sacerdote, que sonha eternamente que rola eternamente uma cabeça morro acima, pede que tocamos, no rádio, dentro da névoa, quartetos de Béla Bartók. O que reclamamos muito, pois sabemos, a pele da música, em sua essência, não me lembro se foi Schopenhauer quem falou, é intocável, e quartetos na névoa é um mistério insuportável. Eu gosto muito é de ler, dos livros proibidos, histórias de mulheres que, à beira do Saara, bebiam, da moringa, a água. Depois, sob severos açoites da madre por ler livros proibidos, adormeço e sonho que beijo a neve dos cabelos daqueles velhos da Boca Maldita. De um deles carrego a dentadura cravada no flanco, pois ele me chupou a coxa, o brinco, a barata do esgoto. E assim são os dias no mosteiro de Dramásio, num filme não iniciado de Federico Fellini, com pomar de pêssegos e rosários de farpas, amém.

Um comentário:

La Vanu disse...

Lídia, ó Lídia!
As penas andam secas e os céus celestes...
Até quando? Até quando?